domingo, 22 de fevereiro de 2015

T1.3 - Na raiz dos conflitos sociais


5. De onde emergem os conflitos que a Política se vê obrigada a administrar?

Já dissemos que as diferenças - convertidas em desigualdades - estão nas origens da Política. Por esta razão, pode ser considerada como gestão das desigualdades sociais. Qual é a origem destas desigualdades?

Tais desigualdades se originam do fato de que nem todos os membros da comunidade usufruem das mesmas oportunidades para acessar os recursos básicos que facilitam o desenvolvimento máximo de suas capacidades pessoais. Esta diferença de situação se expressa de múltiplos modos:

  1. no desfrute de habilidades e talentos considerados às vezes - e não sem discussão - como "naturais": inteligência, capacidades físicas e psíquicas, sensibilidade artística, destreza manual etc.
  2. nos papéis desempenhados nas funções reprodutiva e familiar, segundo o gênero, a idade, o parentesco;
  3. na posição ocupada na divisão social do trabalho produtivo, na qual os sujeitos podem desempenhar ofícios ou profissões catalogados como "manuais" ou como "intelectuais" e na qual assume papéis de direção ou posições subalternas;
  4. na capacidade de intervir nas decisões que se tomam nos processos culturais, econômicos ou na comunicação;
  5. no acesso aos recursos ou rendimentos gerados pela atividade econômica (classes sociais) ou ao status e privilégios derivados do reconhecimento social (aristocracias de sangue, estamentos, castas);
  6. na adesão a identidades simbólicas de caráter étnico, nacional ou religioso, com todos os significados culturais que carregam;
  7. na distribuição pelo território (centro-periferia, rural-urbano) que dá lugar a um acesso diferenciado a recursos de todo tipo.

Tais diferenças de situação marcam fraturas - abismos - entre grupos, cada um dos quais, compartilha determinadas condições: sociais, de gênero, culturais, econômicas etc.. Das relações assimétricas entre estes grupos constantemente nascem tensões que podem requerer um tratamento político.

Há diferenças de situação entre assalariados e patrões, entre gerações de diferentes idades, entre diferentes grupos religiosos, entre distintas comunidades nacionais, entre gêneros, entre agricultores e pecuaristas, entre países pobres e países ricos, entre pequenas e grandes empresas etc.

Não importa apenas que as diferenças tenham um fundamento objetivo ou quantificável, que possa ser medido em termos monetários: por exemplo, a diferença entre patrimônios ou salários.

Também importa a percepção social da diferença. Quer dizer, que a sociedade atribua valor ou prestígio a determinadas situações, enquanto outras sejam vistas como negativas ou de menor valor: por exemplo, o prestígio que o pertencimento a uma ou outra casta acarreta em uma sociedade como a Índia.

O valor ou desvalor - prestígio ou desprestígio - que a sociedade atribui a cada situação origina divergências e enfrentamentos, porque quem ocupa posições desvalorizadas raramente se conformam com elas e quem desfruta de posições de prestígio não querem perdê-las. Desta perspectiva, a origem da Política pode ser atribuída também a uma desigual distribuição de valores em uma determinada sociedade e nas tentativas de corrigi-la (Easton).

6. Entre tantas diferenças assinaladas, há alguma que possa ser considerada central, da qual dependem todas as outras?

Algumas teorias sociais às vezes optaram por selecionar como primordial uma das ditas diferenças:

a divisão em classes sociais;
a diferença de gêneros;
a distinção elite-massa

seriam - segundo diferentes interpretações - a divisão ou fratura-chave, a partir da qual se gerariam todas as demais.

Contudo, há que se admitir que a explicação que pode ser válida em um contexto histórico pode deixar de ser quando esse contexto se modifica: é possível que diferenças ou fraturas de grande importância em um momento dado sejam substituídas por outras, seguindo a evolução das condições sociais e culturais.

Reportagem: Conflitos sociais (Programa Matéria de Capa)



Diferenças internas e externas: política doméstica e política global

As duas tabelas abaixo apresentam um panorama das diferenças internas - dentro de uma mesma comunidade - e externas - entre comunidades.


Na tabela acima, a comparação entre a Espanha - um país avançado - e Serra Leoa - um país em desenvolvimento -  nos revela todo tipo de diferenças.

Por outro lado, as diferenças de renda dentro de um mesmo país, expressam desigualdades no acesso a recursos de todo tipo: educação, saúde, cultura, qualidade de vida etc. Na tabela seguinte, se apresenta a medida da desigualdade interna em alguns países.


As desigualdades internas em cada país nem sempre coincidem com com seu grau de desenvolvimento.

Que sugerem os dados de cada tabela quando se relacionam com a situação política de cada país?

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